14 As Lições do Livro (Parte 1)

A editora e poeta Thereza Christina Rocque Motta estreia sua coluna no Guia da Autopublicação, compartilhando conselhos, relatos e experiências do dia a dia do editor de livros.

Thereza Motta

Certa vez, vivi uma situação (até então) inédita e pavorosa. Imprimi um livro com erro de diagramação. Em 30 anos e 12 de editora, isso nunca tinha me acontecido.

Toda vez que corria o texto, eu conseguia pegar no pulo, mas desta vez não deu. Eu confiei (e sempre acontece algo errado quando faço isso) que estivesse certo como o anterior, porque, pela lógica, não tinha por que aquela linha ter saltado na quarta página e fazer correr o livro inteiro.

São os males das ferramentas de que dispomos e o excesso de coisas que fazemos.

Na urgência de imprimir o livro, sem nos perguntar se está certo (temos sempre de checar mesmo que tenhamos absoluta certeza), damos o passo seguinte e somos pegos desprevinidos: se tivéssemos olhado mais uma vez, teríamos evitado o desastre.

Mas, não: há o erro na cor da capa, o erro na contracapa, e ainda (disse o autor desse livro) algumas retificações para se fazer (ainda). Ou seja, o livro não estava pronto. E esse puxão de orelha só serviu para dizer: “Preste atenção!”

Eu sempre aprendo com “Papai” Livro. Ele está sempre certo e nós sempre errados. Nós acertamos para que ele fique correto, mas como ele não pode se fazer sozinho, depende de nós para que o façamos. Embora ele CANSE de avisar quando está errado e nós que não ouvimos.

Assim, com humildade e sem exagero, retomarei o livro para refazer o que está errado, e reimprimirei, com a cautela necessária, como sempre faço (justamente o que me salvou de uma perda maior, pois imprimi “só” 100 dele).

Era como se o mundo viesse abaixo. E o autor, que me ligara naquela hora, me informava, de viva-voz, algo que eu nunca tinha vivido.

Rapidamente fiz as contas mentais para entender como aquilo havia acontecido, e puxando o único exemplar de que dispunha à mão, constatei, aterrada, o que nunca tinha visto acontecer.

Sempre digo que por mais que já tenhamos vivido todas as situações, sempre há algo reservado que não nos aconteceu ainda. E esta foi a minha vez de viver algo irreparável.

Assim, com humildade e sem exagero, retomarei o livro para refazer o que está errado, e reimprimirei, com a cautela necessária, como sempre faço (justamente o que me salvou de uma perda maior, pois imprimi “só” 100 dele).

Algo me dizia para tomar cuidado, mas eu não entendi que o cuidado era olhar novamente.

Às vezes, a intuição não funciona direito quando há interferências externas, ou ruídos na comunicação. O céu não fala bem com a Terra quando há muita gente falando e muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.

Temos de nos acautelar diante do inexorável. Para que não se repita.

Como diria o Dalai Lama, “poderia ter sido muito pior”.

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